Segunda-feira, 8 de Maio de 2017
Momento de Poesia

    Nem tu, ó alcoólico

Licor dos lagares,

Terás meus cantares,

Meus hinos terás.

Embora das ânforas

Vazado nas taças,

Aos outros tu faças

A boca loquaz.

    Meu canto é da América,

País do tabaco

Melhor do que Baco,

Que o ópio melhor.

A Europa, Ásia e África

E a terra hoje toda

Já fuma por moda

O heróico vapor.

    Até na Lapónia,

Da gente pequena,

Se fuma, e no Sena,

No Tibre e no Pó,

No Volga e Danúbio,

No Tejo e no Douro...

Que grande tesouro

Se deve ao Nicot!

    Nem venha da cânfora

Cantar maravilhas

O das cigarrilhas

Famoso inventor.

Raspail é cismático,

E eu ortodoxo:

O seu paradoxo

Não me há-de ele impôr.

    E os áridos lábios

Mais fumo ainda aspirem,

Que os nécios suspirem

Por beijos febris.

Não quero outros ósculos,

Não quero outra amante,

Qual mais doudejante

Que os fumos subtis?

     Tornadas Vesúvios,

As bocas fumegam

De nuvens que cegam,

Vomitam legiões.

Fumar! Oh delícias!

Prazer de Nababo!

E leve o diabo

Do mundo as paixões!

 

   Extraido do livro "Serões da Província" de Júlio Dinis

 

 

 

publicado por Alegria às 20:21
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Quinta-feira, 4 de Maio de 2017
Momento de Poesia

     No centro de círculos

E nuvens de fumo,

Um deus me presumo,

Um deus sobre o altar.

      Nem doutros turíbulos

Me apraz tanto o incenso,

Como o deste imenso

Cachimbo exemplar!

       Em divãs magnificos

De seda e veludo

Repousa sisudo

O ardente Sultão.

Fumando, inebria-se

E esquece odaliscas,

E os beijos, faíscas

De amor e o Alcorão.

      De longe, oh! longe o ópio,

Que sonhos deleita

Da mísera seita

Dos Theriachis.

Horror ao narcótico,

Que vem das papoulas,

E ao que arde em caçoulas

No arém dos Alis.

      Que a África tórrida

De areias candentes

Consuma sementes

Do arábio café.

Bebido nas chávenas

De índia e porcelana

A negra tizana

Veneno me é.

       E a folha asiática

Delícias da China,

Por nossa má sina

Trazida p´ra cá?

Sorvida em familia,

Em morno hidro-infuso!

Anátema ao uso

Das folhas de chá!

 

(Continua)

         

Julio Dinis (Serões da Província)

 

publicado por Alegria às 21:12
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Quarta-feira, 3 de Maio de 2017
Momento de Poesia

Melancholia

 

Oh doce luz, oh lua!

Que luz suave a tua,

E como me insinua

Em alma que fluctua

De engano em desengano!

   Oh criação sublime!

A tua luz reprime

As tentações do crime,

E á dor que nos opprime

Abres-lhe um oceano!

 

É esse ceu um lago,

E tu, reflexo vago

De um sol, como o que trago

No seio onde o afago,

No seio onde o aperto?

    Oh luz orphã do dia!

Que mystica harmonia

Há n´essa luz tão fria,

E a sombra que me guia

N´este areal deserto?

 

Embora as nuvens trajem

De um dia outra roupagem,

O sol, de que és imagem,

Não tem essa linguagem

Que encanta, que namora!

    Fita-te a gente, estuda,

Sem medo que se iluda,

Essa, linguagem muda...

O teu olhar ajuda...

E a gente sente e chora!

 

Ah! sempre que descrevas

A orbita que levas,

Confia-me o que escrevas

De quanto vês nas trevas,

Que a luz do sol encobre...

    As victimas, que escutas,

De traças mais astutas

Que as d´essas feras brutas...

E as lastimas, as luctas

Da orphã e do pobre!

 

Extraida do livro " Campo de Flores" de João de Deus

 

publicado por Alegria às 21:33
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